A narrativa predominante no mercado é clara: com projeções de redução da Selic de 2 a 3 pontos percentuais em 2026, o setor imobiliário brasileiro deve atravessar um momento de recuperação. Crédito mais acessível, parcelas menores, maior capacidade de compra. A fórmula parece simples e, em grande medida, é verdadeira.
Mas é justamente quando o consenso se torna confortável que o investidor sofisticado precisa calibrar sua análise.
Segundo projeções da Abrainc, cada ponto percentual de queda na Selic reintroduz cerca de 160 mil famílias ao mercado de financiamento habitacional. É um dado expressivo, especialmente para o segmento de classe média, historicamente mais sensível ao custo do capital. Para o mercado de alta renda, que opera com menor dependência de alavancagem, o impacto tende a ser mais contido.
O que está menos presente no debate, contudo, são as consequências de segunda ordem: quando o acesso ao crédito se amplia, a demanda por imóveis naturalmente se aquece. E quando a demanda cresce sem ajuste proporcional na oferta, os preços tendem a acompanhar. O movimento é previsível: valorização de ativos já consolidados, compressão de margens em obras em andamento e, em alguns casos, redução efetiva do poder de compra ajustado pelo preço final do imóvel.
Para o investidor, isso significa que a janela de entrada pode estar se fechando antes mesmo de a Selic efetivamente cair.
Enquanto o mercado aguarda ansiosamente por juros menores, há segmentos que já operam em uma lógica dissociada dos ciclos de política monetária. O programa Minha Casa Minha Vida é um exemplo cristalino: juros subsidiados pelo governo federal, incentivos estaduais adicionais (como o "cheque moradia" de até R$ 48 mil por unidade em Goiás), demanda reprimida estrutural e ciclos curtos de obra.
Esses projetos entregam retornos elevados, falo de TIRs entre 35% e 40%, independentemente de a Selic estar a 15% ou 10%. A resiliência da tese não é retórica; é matemática. Quando analisamos as três incorporadoras de capital aberto com maior crescimento de lucro nos últimos cinco anos, todas atuam no segmento econômico. Por outro lado, suas ações já precificaram esse desempenho, alta acumulada entre 82% e 93% apenas em 2025.
O investidor qualificado, portanto, se depara com um paradoxo: as melhores empresas estão caras; os melhores ativos, descapitalizados; e as melhores oportunidades, fora do radar do capital institucional tradicional.
Na BRM Asset, aprendemos ao longo de mais de quatro décadas que ciclos macroeconômicos criam oportunidades, mas apenas para quem consegue acessar o ativo certo, no momento certo, com a governança adequada.
Nossa tese no segmento MCMV não parte da expectativa de queda da Selic. Parte da leitura de que o déficit habitacional brasileiro de 6,2 milhões de moradias não será resolvido por políticas monetárias, mas por execução operacional, originação criteriosa e parcerias sólidas com incorporadoras regionais de primeira linha.
Estruturamos nossos investimentos em três camadas de proteção: permutas financeiras com fluxo mínimo garantido, equity preferencial com retorno prioritário ao investidor e participação societária direta em projetos de alta convicção. Cerca de 50% do capital fica alocado nas estruturas de menor risco. O portfólio é diversificado em até 25 projetos, pulverizado entre Distrito Federal, Goiás e Santa Catarina, mercados que conhecemos profundamente.
A queda esperada da Selic será positiva para o setor imobiliário? Sim, sem dúvida. Facilitará o acesso ao crédito para o comprador final, aquecerá a demanda por lançamentos e trará maior liquidez ao mercado secundário.
Mas para o investidor que busca assimetria de retorno, a questão não é "quando a Selic vai cair?", e sim: "onde estão os ativos que performam independentemente da Selic?"
O ciclo que se desenha em 2026 não será transformador para quem espera passivamente. Será vantajoso para quem já está posicionado, para quem compreende as nuances de cada segmento e para quem tem acesso a operações com governança institucional fora do eixo tradicional.
O mercado imobiliário brasileiro oferece excelentes oportunidades. Mas as melhores delas raramente aparecem em consensos confortáveis.
Pedro Fernandes
CEO do Grupo Beiramar | BRM Asset
Gestora especializada em investimentos imobiliários com R$ 2,2 bilhões em ativos sob gestão